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Registo 90

Registo da vida a mudar desde 01/01/1990.

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São Jorge, Açores: infeliz no paraíso

Eu não fui feliz no paraíso.

 

Para quem não me conhece, nos últimos três anos vivi e trabalhei na ilha de São Jorge, no arquipélago dos Açores, um arquipélago que pertence a Portugal.

 

Está é a ilha menos economicamente desenvolvida das três ilhas do triângulo Pico-Faial-São Jorge, no entanto uma das mais míticas e belas.

 

São Jorge é a ilha mais comprida e mais alta do arquipélago e é nas zonas baixas junto ao mar que se localizam a maior parte das comunidades.

 

Aqui ouve-se a rebentação das ondas, a brisa do mar e diferentes cantar de pássaros todos os dias e em todos os lugares. Na maior parte das vezes são esses os sons que quebram o silêncio.

 

Nesta ilha existem lugares onde não há bom sinal de rede móvel e nem se conseguem usar telemóveis ou internet. A televisão aqui ainda chega por satélite à maior parte das casas.

 

Acordar pela manhã em São Jorge e descobrir o Pico coberto de neve ou outras vezes não ver o Pico coberto pela nublina ou então ver a montanha descoberta magestosa e imponente é algo que nem os melhores escritores conseguiriam descrever na sua plenitude e que nenhuma câmara conseguirá captar por inteiro.

 

Quando o sol se põe por detrás do Faial, o céu deixa de ser azul. As cores do céu formam uma palheta de tons azul, roxo, violeta, lilás, vermelho, e amarelo. Nos dias em que há nuvens, elas parecem pintadas a ouro sobre um manto lilás até vermelho. No por do sol, Faial e Pico mostram as suas silhuetas curvilíneas em contra luz.

 

Em cada lugar da ilha há uma nova paisagem arrebatadora a descobrir. Tantas vezes dei por mim sentado algures num lugar perdido simplesmente a contemplar, completamente perdido no tempo. Podiam ser os anos 2000 ou os anos 1900 ou talvez os anos 1400, anos da descoberta dos Açores.

 

A paisagem virgem, natural, coberta de vegetação é atemporal e quase não diz a sua idade.

 

Envolto neste paraíso insular e atemporal eu não fui feliz.

 

Desde sempre ambiciei mais da vida. Nunca soube responder o que mais desejava. Mas nunca me dei por satisfeito com o que tinha. Não ambiciono grandeza ou riqueza. Simplesmente, preciso de sentir que estou sempre a evoluir, a acrescentar.

 

Profissionalmente, eu atingi um patamar sem potencial de evolução. Eu iria permanecer os próximos 35 anos a fazer sempre a mesma coisa e salvo aumentos de salário, eu não iria ter qualquer outra mudança de carreira ou operação.

 

Aqui também sempre senti que não estava rodeado de pessoas que falam das mesmas coisas do que eu. Nunca conheci ninguém que tivesse os mesmos interesses, que gostasse de mim ou de falar comigo ou de me ouvir falar. Embora tenha feito boas amizades e tenha conhecido muito boas pessoas, eu não me sentia acompanhado ou completo.

 

Com o passar do tempo, fui me sentido muito sozinho, cheguei a passar 4 dias seguidos sem ver ninguém, sem falar com ninguém.

 

Várias vezes eu senti que a culpa era minha, porque eu também não convidava as pessoas ou não tentava combinar algo. Eu sentia que as pessoas tinham os seus planos, as suas coisas e que também se já tinham passado uma semana inteira comigo, estávamos a precisar de descanso uns dos outros.

 

Eu sou uma pessoa extremamente sociável. Eu tenho uma enorme facilidade em me conectar com as pessoas e em falar com pessoas desde crianças aos mais velhos.

 

No passado, eu era uma pessoa popular que ia a todos os eventos e cheguei a trabalhar três anos como organizador de eventos.

 

Aqui acabava não indo a certos eventos ou festas, porque estava sozinho e não queria ir sozinho.

 

Ultimamente, comecei a sofrer de ansiedade e hipertensão associada a ansiedade.

 

Eu tinha que fazer uma mudança, tinha que sair daqui. Mas também ia deixar uma casa boa, um emprego bom, ia desapontar algumas pessoas daqui e se não tivesse apoio da minha família e amigos, não ia conseguir fazer essa transição para outro lugar ou emprego.

 

Acabou que a mudança chegou. Eu consegui um emprego melhor na capital.

 

Todas as pessoas que conheciam ficaram feliz e todas elas sentiam que eu estava a fazer bem e que eu me estava a perder aqui. Os meus pais chegaram a dizer-me eu estava a desperdiçar a minha juventude aqui. Uma amiga mais próxima chorou quando soube que eu ia sair daqui de tao feliz que estava por mim. Nem eu próprio chorei de tristeza ou felicidade.

Eu nunca fui capaz de chorar a minha partida ou de celebrar a mudança. Eu mudei por necessidade. Eu não mudei por que odeio estas pessoas, eu não odeio estás paisagens. Talvez eu não fui feliz aqui. Mas eu tive tudo aquilo que podia ambicionar e que muitas pessoas só alcançam depois de velhotes ou nunca alcançam: uma boa casa, um bom emprego, ser respeitado, ter amigos, fazer parte de uma comunidade.

Aqui a lição que aprendi é que podemos ter tudo, viver no paraíso idealizado por muitos, mas se faltar o que importa, nada disso interessa. 

Minimalismo: Porquê mudar?

Alguém disse que "a mudança é a única constante da vida", o que ninguém listou foram as consequências dessas mudanças ou os seus benefícios.

 

Moro nos Açores, um conjunto de 9 ilhas que ficam situadas no Atlântico Norte e que pertecem a Portugal. Ao longo dos anos, mudei várias vezes de ilha. 

 

Em cada momento e com cada mudança, eu também mudei e fui uma pessoa diferente em cada lugar, porque era jovem, porque era estudante, porque estava a trabalhar pela primeira vez, por obrigação profissional, porque amadureci. Eu mudei, como todos mudamos, eu cresci.

 

Em cada momento da minha vida quis coisas diferente, vesti-me de formas diferentes, vesti-me apropriadamente ou não para situações diferentes, comprei coisas diferentes.

 

Ao longo do tempo acumulei, basicamente, duas coisas: Responsabilidades e tralha.

 

Com o passar dos anos fui acumulando responsabilidades profissionais e domésticas cujas me trouxeram imenso stress e responsabilidade. E como sou solteiro e moro sozinho, essas responsabilidades eram cansativas e infinitas.

 

Eu não estava bem físicamente e no lugar onde vivo. Profissionalmente, o meu estado de esprítio estava a afectar cada vez mais a minha carreira. Quando surgiu a oportunidade de mudar para outro lugar, para um novo emprego e começar de novo, eu não consegui. Eu tenho um cão, mobilias diversas, contas para pagar, contratos de fidelidade com fornecedores de telecomunicações. 

 

Então em 2019, eu decidi mudar. Depois de passar várias horas a assistir vídeos no YouTube e de ver alguns documentários no NETFLIX descobri uma comunidade de pessoas que sofriam dos mesmos problemas que eu e que tinha escolhido ter uma vida mais simples, mais direcionada, mais intencional, e mais focada na sua realização pessoal e profissional. Uma vida com menos pesos. 

 

Passado três meses desde o início desses ajustes à minha vida, eu encontrei uma maior paz de espírito, maior saude financeira, mais tempo livre, e uma maior liberdade e disponibilidade para novos desafios.

 

O minimalismo como estilo de vida é muito mais do que paredes brancas e decorações brancas ou salas vazias. É ter apenas o que se necessita, o que que se gosta, o que nos realiza. É sobretudo, não preencher os nossos vazios com coisas desnecessárias e que só dificultam a nossa vida.

 

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